Lucila Wroblewski | fotografia

ocasos e acasos

Foto é luz, grafia é escrita. Escrever com a luz! Eis o enigma e a sedução que a fotografia promove, impulsionando o homem a repensar e recriar a existência das coisas visíveis há exatos 170 anos.

Verter a luz em forma, textura e cor. Reter o tempo-espaço fugidio. Tornar perene aquilo que por sua gênese é extremamente volátil. A escrita da luz possibilita embaralhar os tempos e dar dimensão onírica à memória.

Quando essa caligrafia luminosa e errática é realizada por um artista, o lirismo do processo fotográfico pode adquirir dimensões inimagináveis. Expandindo as possibilidades do aparelho, o artista cria escrita própria para, mais que representar o mundo, dar materialidade a universos simbólicos inventados pela sua subjetividade.

As “Paisagens Silenciosas” de Lucila Wroblewski recebem uma radiação de luz inesperada justamente quando as sombras começam a se projetar anunciando o declínio da luz solar. O lusco-fusco é o momento propício para sua ação. Quando as sombras anunciam o ocaso tingindo a paisagem com gamas de cinzas e sombras, as luzes ficcionais da artista comparecem com sua porção de acaso para que fábulas iluminem e reanimem o mundo real em processo vertiginoso de apagamento.

Do silêncio da paisagem cega surgem, por encanto, faunos, seres dançantes, florescências, luminâncias, vestígios. O mundo, enfim, reinventado, reescrito e redimensionado pela luz febrilmente poética da artista.

Eder Chiodetto

Texto de abertura da exposição Paisagens Silenciosas_cor/todas as coisas dão frutos, 2009